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FEDERAÇÃO PORTUGUESA DE NATURISMO

Porque já não me considero um Nudista

PORQUE JÁ NÃO ME CONSIDERO UM NUDISTA

Eu minto. Digo às pessoas que sou um nudista aos olhos da opinião pública corrente à média de uma vez por dia. Digo-o com paixão, digo-o sem vergonha e digo-o com orgulho.

Mas detesto o rótulo.

Sinto-me tal qual como o compositor Steve Reich nos anos sessenta, quando o termo “minimalista” foi aplicado à sua música por toda a gente à sua volta.

Este termo não representava o modo como Steve Reich via a sua obra no mundo artístico, e para ele foi um estigma que acabou por limitar o âmbito e o público que ele queria alcançar.

Pois bem, meu herói musical, assim me sinto eu em relação ao termo “nudista”.

Continuo a dizer a mim mesmo – à média de uma vez por dia – que sou uma pessoa, raios! Uma pessoa que apenas adora estar nua.

A verdadeira razão pela qual estou a passar por esta “crise de identidade” è que me encontro numa missão de mudar o mundo. Não quero mais retirar-me para uma obscura tribo de pessoas que vive à margem da sociedade. Eu quero mudar a sociedade.

O “Nude Movement “ (Movimento Nu) foi criado para este mesmo propósito. O seu objectivo?

Tornar a nudez “fixe” novamente.

Os já pouco claros termos “nudista” e “naturista” – se é que as pessoas entendem correctamente – suscitam imagens de cinquentões flácidos a jogar volley numa “colónia nudista” decrépita e fora de moda.

Quem se quer identificar com esta imagem em 2016? Quem desejaria sequer aproximar-se?

Temos um público para persuadir. E está na hora de usar outras estratégias.

Já a palavra “nudie” (desnudo) tem surgido como uma alternativa, ganhando força junto da opinião público e dos sábios da comunicação social, e esta juntamente com o universal “nude” (nu) são os termos que não carregam os estereótipos obsoletos com os quais ninguém se quer identificar.

O futuro da nudez social é junto a uma nova multidão – os jovens do Snapchat e do Instagram – as pessoas que vêem pornografia e que não se queixam nem estão fartos de sexo nos meios de comunicação, que vai desde a voz sensual no anúncio de chocolate na TV até ao “soft porn” contido na maior parte dos vídeos musicais mais vistos no YouTube. Elas sabem que o corpo humano é sexy, e não vão nega-lo. Vão goza-lo. É assim que os nossos corpos funcionam.

Assim, se a pornografia é “fixe” e o sexo também, porque é que a nudez não pode ser “fixe” também?

“Nude” e “nudie” (ver acima) são termos que irão atrair a nova geração. São refrescantes, universais e por isso mesmo impossíveis de ser estigmatizados.

Aumenta ainda mais o meu apelo quando convido pessoas para ir a praias onde se pode estar nu (nude beaches no original) – amigos que não são nudistas e outros que têm um problema sério em relação ao que a palavra pode significar.

Agora que já não sou “nudista” é tipo: “Vá lá, vai ser giro, estamos em 2016, tens algum problema com a nudez do corpo humano?” em vez do outro se sentir intimidado a ser “nudista” porque parece que é isso que eu estou a fazer.

Somos apenas amigos, e gostamos de estar nus. Às vezes. Boa!

Vêem a diferença?

Palavras são palavras, mas as palavras mudam o mundo. Definem as pessoas. E aquelas definições podem significar muito.

Então o que devemos dizer a esta nova e destemida geração do Snapchat e do Instagram?

Vão nus.

Fiquem nus.

O que é que nós queremos, afinal? Queremos mais nudez no mundo, não queremos mais “nudistas”.

Não quero ser mais classificado como uma pessoa diferente. Compreendo as alegrias e a comodidade de nos identificarmos com determinada tribo – é como ser vegan, ou paleo, ou motard – tu sentes orgulho no teu grupo, e protegido do mundo crítico lá fora que não te entende. Sentes reconhecimento.

Mas estou aqui para te dizer que se queres garantir tudo aquilo que os nudistas adoram e defendem, enquanto o mundo se torna cada vez mais sexual, é tempo de largares a tua tribo.

A nudez precisa de ser reinventada. Precisa de um 2.0.

E já cá está. Já começou.

Começa quando escolhes uma praia “têxtil” perto – onde possas nadar e tomar sol nu a uma distância considerável – em vez de fugires para uma praia nudista oficial distante e onde ninguém irá descobrir a nudez como algo fantástico e inofensivo de praticar.

Começa quando promoves a nudez como algo normal e parte da cultura dominante com um simples encolher de ombros (na pior das hipóteses, as pessoas irão lidar com isso; na melhor das hipóteses, irão iniciar uma conversa) em vez de fazeres uma propaganda enorme que só te irá promover à categoria de “estranho” (e é assim que o nudismo é muitas vezes visto).

Começa quando nos libertamos.

Agora digo simplesmente: “Adoro estar nu!”, o que é instantaneamente mais apelativo, interessante e susceptível de iniciar uma conversa aberta do que qualquer outra coisa que eu tenha dito antes.

Às vezes ainda digo que sou um nudista. Mas é uma expressão que uso cada vez menos.

Retirei-a dos dados biográficos no mural do meu perfil do Facebook. Sabe bem. E como consequência, sinto que irei melhorar o meu apelo aos não nudistas.

Todos os nudistas anseiam que a sociedade mude de um modo completamente iconoclasta na sua essência. È uma mudança cultural telúrica para todos os envolvidos. Felizmente temos tido vitórias de mudança como a recente aceitação em massa da cultura LBGTQ (e com a canabis seguidamente a deixar de ser tabu), e a nudez social irá exigir mais coragem, compreensão, informação da parte das pessoas… e, acima de tudo, vontade.

As pessoas têm de querer mudar.

E tu, queres?


Fonte
Traduzido e adaptado por Rita